Refrigerante do Bem: a bebida gaseificada com soro do leite que pode virar um novo produto para laticínios
Uma bebida láctea carbonatada (com gás), produzida a partir do soro do leite, subproduto típico da fabricação de queijos, está avançando em Minas Gerais e entrou em etapa de validação. O projeto é conduzido pelo Instituto de Laticínios Cândido Tostes (ILCT), ligado à EPAMIG, e busca transformar uma questão ambiental em oportunidade de inovação e valor agregado para o setor. A proposta é desenvolver um produto que pode ser acidificado ou fermentado e ainda enriquecido com proteínas, vitaminas e minerais, com potencial de incluir prebióticos e probióticos, dependendo da formulação.
Por que o soro do leite virou o centro dessa ideia.
O soro é gerado em grande volume: como referência, há estimativas de que para cada quilo de queijo sejam produzidos entre 8 e 9 litros de soro. Por muito tempo, ele foi tratado como efluente, e o descarte inadequado é um risco porque a carga orgânica do soro pode elevar a demanda biológica de oxigênio (DBO), contribuindo para poluição quando vai para cursos d’água sem o devido tratamento. Só que o mesmo soro também é nutricionalmente relevante: carrega água, lactose, proteínas, vitaminas e minerais. Não à toa, nos últimos anos, o setor tem reposicionado o soro como insumo para produtos com maior densidade nutricional e apelo funcional. É nessa virada de chave que nasce o Refrigerante do Bem: um jeito de aproveitar o soro e, ao mesmo tempo, criar uma bebida que conversa com duas tendências fortes no consumo: sustentabilidade (reaproveitamento) e produtos com proposta nutricional.
O que é o “Refrigerante do Bem”, na prática?
Apesar do apelido “refrigerante”, o projeto descreve a bebida como uma bebida láctea carbonatada desenvolvida com soro do leite. O diferencial é o conceito: em vez de “calorias vazias”, a base láctea permite manter componentes do leite e, conforme a formulação, abrir espaço para enriquecimentos. De acordo com a EPAMIG, o nome “Refrigerante do Bem” foi escolhido justamente por traduzir esse propósito: melhor destinação para o soro (evitando descarte) e manutenção de nutrientes como cálcio, sais minerais e vitaminas, com possibilidade de incluir prebióticos e probióticos. A fase atual é de ensaios preliminares para caracterizar o soro (composição, qualidade e parâmetros básicos) e definir ingredientes e método de fabricação.
O que isso sinaliza para laticínios e para a cadeia do leite?
Soro deixa de ser custo e vira estratégia: quando o soro é visto só como descarte, ele pesa na operação. Quando entra como matéria-prima de um produto com valor agregado, ele pode virar margem, portfólio e posicionamento, especialmente em tempos de consumidor mais atento a rótulos e propostas funcionais.
Inovação com implantação potencialmente simples: A EPAMIG caracteriza o projeto como de avanço tecnológico e com perspectiva de implantação em escala industrial, desde que cumpridas as rotinas regulatórias e de linha. Isso abre espaço para que laticínios acompanhem de perto e avaliem aderência à própria realidade industrial.
“Upcycling” (reaproveitamento) como narrativa forte: Reaproveitar um subproduto que pode ser ambientalmente problemático se mal manejado, e transformá-lo em algo desejável — é uma narrativa poderosa para marcas, além de um ganho operacional.
Conclusão
O Refrigerante do Bem representa um caminho real para a indústria de laticínios transformar excedentes e subprodutos em inovação, conectando sustentabilidade, eficiência industrial e novos formatos de consumo. Se a validação confirmar estabilidade, segurança e viabilidade tecnológica, o setor pode ganhar uma alternativa interessante de portfólio e, de quebra, um novo destino para um dos maiores volumes gerados na cadeia do queijo.
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Este artigo foi escrito por: Lara Santos Balbino - Redatora do Grupo Cia do Leite