Categoria: Gestão de propriedades leiteiras

Pegada de carbono do soro de leite: 85% está no campo.

27 de de 2026

Por muito tempo, o soro de leite foi visto como um desafio ambiental para a indústria de laticínios. Rico em lactose, proteínas e carga orgânica, o descarte inadequado desse subproduto poderia causar impactos relevantes ao meio ambiente, especialmente em corpos d’água.

Agora, um estudo desenvolvido em cooperação técnica entre Embrapa Gado de Leite, Sooro Renner Nutrição e UTFPR coloca o soro de leite em outro patamar: o de insumo estratégico para a indústria e indicador importante da eficiência ambiental da cadeia láctea brasileira.

O que o estudo analisou?

A pesquisa mapeou a pegada de carbono do soro de leite no Brasil usando a metodologia de Avaliação de Ciclo de Vida (ACV). Essa metodologia permite medir impactos ambientais considerando diferentes etapas da cadeia produtiva, desde a produção do leite na fazenda até o transporte, o processamento industrial e a obtenção do soro em pó.

No estudo, a análise não ficou restrita à indústria. Ela também incluiu a produção primária do leite, os deslocamentos logísticos e as transformações industriais necessárias para transformar o soro líquido em ingrediente de maior valor agregado, como o soro de leite em pó, associado ao mercado de whey protein.

Por que a Avaliação de Ciclo de Vida é importante?

A Avaliação de Ciclo de Vida permite enxergar a cadeia como um sistema completo. Em vez de analisar apenas uma etapa isolada, ela mostra onde estão os maiores pontos de emissão, consumo de energia, uso de recursos e geração de resíduos. Na prática, isso evita conclusões simplistas. Uma indústria pode melhorar embalagens ou trocar fontes de energia, mas se a maior parte das emissões estiver na produção do leite no campo, o maior potencial de redução estará nas fazendas.

Campo concentra a maior parte das emissões: o que isso significa?

Um dos pontos mais relevantes é que, na produção de soro de leite em pó, cerca de 85% das emissões totais ocorrem no campo. Isso mostra que a sustentabilidade do soro começa muito antes da chegada da matéria-prima à indústria. Esse dado reforça uma mensagem importante para produtores, técnicos e empresas compradoras de leite: reduzir a pegada ambiental da cadeia passa diretamente pela melhoria da eficiência produtiva nas propriedades.

Fazendas mais organizadas, com melhor manejo nutricional, sanidade controlada, maior produtividade por vaca e melhor uso dos recursos tendem a diluir emissões por litro de leite produzido. Ou seja, sustentabilidade e eficiência produtiva caminham juntas.

O soro como exemplo de economia circular.

O estudo também reforça a mudança de visão sobre o soro de leite. Antes tratado como passivo ambiental, ele passou a ser aproveitado como matéria-prima para diferentes segmentos da indústria de alimentos. O soro em pó é utilizado em produtos de nutrição esportiva, panificação, alimentos processados e formulações industriais. Essa transformação reduz desperdícios, aproveita nutrientes que já foram produzidos dentro da cadeia leiteira e agrega valor a um material que poderia representar custo ambiental e operacional para os laticínios.

Esse movimento aproxima a cadeia láctea do conceito de economia circular: em vez de descartar, reaproveitar; em vez de tratar o subproduto como problema, transformá-lo em oportunidade.

Transparência ambiental ganha força no mercado.

A disponibilização de Inventários de Ciclo de Vida do soro na plataforma SICV Brasil, gerida pelo IBICT, é outro ponto importante. A proposta do banco é gerar transparência sobre perfis ambientais e apoiar decisões mais sustentáveis. Isso significa que pesquisadores, empresas, órgãos públicos e indústrias poderão utilizar dados mais próximos da realidade brasileira, em vez de depender apenas de referências internacionais.

Para o setor lácteo, esse avanço pode ajudar na construção de indicadores mais precisos, certificações, estratégias ESG, acesso a mercados e comunicação com consumidores cada vez mais atentos à origem e ao impacto dos alimentos.

Relação com compromissos climáticos.

O estudo também se conecta ao contexto mais amplo de compromissos climáticos. O Compromisso Global de Metano reúne participantes que buscam contribuir para uma redução coletiva de pelo menos 30% das emissões globais de metano até 2030, em relação aos níveis de 2020.

Na pecuária leiteira, o metano é um tema central, especialmente por estar relacionado à fermentação entérica dos animais e ao manejo de dejetos. Por isso, melhorar a eficiência dos sistemas produtivos, reduzir perdas e aumentar a produtividade por animal são caminhos importantes para diminuir a intensidade de emissões da atividade.

Impactos práticos para produtores de leite.

Embora o estudo tenha foco no soro de leite e seus derivados, os resultados têm implicações diretas para o produtor rural. Se a maior parte da pegada de carbono do soro começa na produção do leite, a propriedade rural passa a ter papel decisivo na sustentabilidade de toda a cadeia. Isso aumenta a importância de práticas como:

• manejo nutricional mais eficiente

• melhoria da produtividade por vaca

• controle sanitário do rebanho

• gestão de dejetos

• uso racional de água e energia

• melhoria da qualidade do leite

• redução de perdas no processo produtivo

• organização de dados zootécnicos, econômicos e ambientais

Essas práticas não servem apenas para reduzir impacto ambiental. Elas também ajudam a melhorar margem, produtividade e previsibilidade da atividade.

Oportunidade para a indústria láctea.

Para laticínios e empresas processadoras, o estudo oferece uma base mais robusta para identificar gargalos e planejar ações de mitigação. Com dados de ciclo de vida, a indústria consegue entender melhor quais etapas mais pesam na pegada de carbono do produto final. Isso permite direcionar investimentos com mais precisão, seja em eficiência energética, logística, processamento, relacionamento com fornecedores ou programas de assistência técnica no campo. A sustentabilidade deixa de ser apenas discurso institucional e passa a ser uma ferramenta de gestão.

Conclusão 

O estudo mostra que a sustentabilidade da cadeia láctea começa na fazenda. Melhorar eficiência, produtividade, qualidade do leite e gestão dos recursos será cada vez mais importante para reduzir impactos ambientais e aumentar a competitividade.

Nesse processo, a assistência técnica da Cia do Leite pode ajudar o produtor a identificar oportunidades de melhoria e preparar a propriedade para um mercado cada vez mais atento à sustentabilidade. Quer entender onde sua propriedade pode evoluir? Fale com a equipe da Cia do Leite.



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Este artigo foi escrito por Lara Santos Balbino - Médica veterinária e redatora do Grupo Cia do Leite




Publicado em: 27/05/2026